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Lacan e a psicanálise do século XXI “de Jorge Forbes”

No vídeo “ Lacan e a psicanálise do século XXI”, Jorge Forbes nos aponta a teoria psicanalítica de Lacan em seus 2 tempos de enunciação. O chamado primeiro Lacan e o segundo Lacan. Ao fazê-lo, Forbes procura traçar as linhas gerais dessa teoria psicanalítica lacaniana, o, por assim dizer, espírito do tempo em que foi concebida e como essa teoria, por assim dizer, encontra ressonância, ou porque não, como essa teoria se molda aos novos modos de produção de gozo de nossa época tão “ rica” nesses modos.

Jacques Lacan (1901-1981), procurou um literal retorno a Freud, voltar às raízes da psicanálise como Freud a concebera. Desde a morte de Freud em 1939 e a predominância clínico- teórica da IPA e sua inserção nos Estados Unidos, a psicanálise, para Lacan, perdera seu rumo, rompera seu alicerce primevo de exploração do inconsciente e se tornara uma mera psicoterapia do eu, adaptativa e vazia. Foi através dessa missão, por assim dizer, gigantesca, que Lacan se pôs a colocar a psicanálise em seu eixo primeiro, original, como Freud a concebera.

Jorge Forbes vai analisar os dois momentos principais da obra e do ensino de Lacan: o primeiro, que vai de 1953 a 1970, do primado do simbólico, e o segundo Lacan, de 1970 a 1981, o Lacan do Real.

Como Freud havia estabelecido, o método da associação livre era a regra de ouro da psicanálise, que dá ao psicanalista o acesso ás formações do inconsciente. Em sua primeira elaboração, Lacan, usando, principalmente a linguística de Saussure e a antropologia de Lévi-Strauss como ferramentas teóricas, estabelece o primado do significante na fala, a emergência desses significantes no inconsciente: diz-se algo, mas esse algo remete a outra coisa diversa. Esse imergir dos significantes, que ao compor uma cadeia dão acesso a essas formações latentes, criam um sentido para o analista, sentido esse que estaria oculto no recalque, no esquecimento. Lacan dirá que a análise é “ feita de bobagens”, as nossas bobagens anedóticas do dia a dia, que na cadeia de significantes vão fazer sentido.

Na segunda clínica de Lacan, a partir de 1970, entra o Real, aquilo que não sabemos muito bem o que é, o “não há nada além daquilo. Forbes nos diz que nessa segunda clínica, “ o inconsciente não salva mais”, pois o sintoma torna-se “indecifrável” e “a pessoa é seu sintoma”. Mas, ainda assim, vamos ter que nos conectar com “essa coisa que não sei o que é”, “vou ter que inventar algo para dar conta disso e me responsabilizar por isso”. O contraste com a segunda clínica lacaniana é óbvio: se no simbólico, o sintoma seria decifrado fazendo sentido com o deslizar dos significantes em uma cadeia dando acesso às formações do inconsciente, na segunda clínica, o sintoma é “indecifrável” pois “ o sujeito é seu sintoma”.

Forbes elabora um quadro bastante interessante para tentar dar conta desse giro do eixo civilizacional da modernidade para o que ele chama de “ mundo globalizado” e nós preferimos chamar também de pós- modernidade. Em nossa opinião, há pontos muito “acertados” nesse quadro, embora alguns outros nos pareçam fora do eixo de nossa época.

É verdade que hoje, nosso mundo é muito mais horizontal do que verticalizado, há como que se não real, mas aparente liberdade de se exprimir, de se subjetivar mesmo, especialmente com o advento das chamadas “políticas identitárias”. Se acreditam psicanalistas como Jacques Alain- Miller e parece acreditar o próprio Forbes, haveria um suposto “esgarçamento” do nome do pai como o concebeu Lacan, acreditamos que essa instância está longe de ser uma realidade intrínseca na pós- modernidade. A sociedade, ainda que tenha vivido, grandes transformações familiares, com o advento de novas entidades familiais, é, ao nosso ver, basicamente regida pela castração e pelo nome do pai. De outra forma, os laços sociais teriam sido esgarçados e viveríamos, por assim dizer, em uma sociedade dominada pela psicose e pela perversão.

Mesmo que tenha existido uma sociedade moderna regida pela verdade, essa afirmação nos parece exagerada e dogmática. Nunca, pensamos, houve uma só verdade e se hoje, temos como quer Forbes “múltiplos referentes”, eles nos remetem exatamente a essas múltiplas verdades que hoje, nos dizem de posições políticas, identitárias, de processos de subjetivação mesmo, que pensamos, formam esse coral múltiplo de vozes da pós- modernidade. Se a modernidade foi um construto criado política e filosoficamente para dar vazão a uma liberdade tanto econômica quanto individual, liberta da ortodoxia religiosa, ela se transmuta, hoje, em múltiplas vozes das quais, ainda, acreditamos, emerge uma verdade.

Não concordamos com Forbes em que as hierarquias foram substituídas por “monólogos articulados”. Nem nos parece pertinente essa comparação. As hierarquias, acreditamos, vão muito além do “ cada um no seu lugar”. Elas existem para que todas as partes se intercomuniquem em um todo, em uma gestalt. E hoje a hierarquização se dá dentro mesmo das diferenças, isto é, as diferenças intrínsecas ( de subjetivação, históricas, etc) não são mais, a priori, obstáculos para operar em uma hierarquia funcional. Assim, as características que Forbes nomeia como “experiências, responsabilização, oportunidade, razão sensível” são, obviamente componentes visíveis dessa era globalizada. Mas o são, acreditamos, como ainda interconectadas em uma teia em que a troca de experiências, o compartilhar de diferentes visões de mundo operam dentro dessa hierarquia, podemos dizer, que forma uma teia, um emaranhado de fios conexos e de múltiplos significados e que, acreditamos, são a grande característica da pós-modernidade.

Grosso modo, podemos afirmar que Forbes talvez generalize alguns aspectos do mundo globalizado, mas acerta ao entender que esse mundo anseia por uma “vida qualificada”, em que os afetos possam ir além dos laços “da carne”, em que a o a amizade e o respeito à diferença deem o tom. A clínica do Real, pós-edípica não é mais a da travessia do fantasma, mas da identificação ao sintoma, da responsabilidade do ato e da invenção do futuro. E aqui nos perguntaríamos: – é possível essa clínica? E o objeto a? Qual seu papel nessa clínica em que o sintoma se identifica com o sujeito?

Jorge Forbes faz uma análise pertinente, sensível e plausível da clínica do século XXI, de seus dilemas frente a um mundo em constante mutação, frente a um mundo que nesse sentido, longe de uma única e acachapante verdade, se interconecta na pluralidade dos sujeitos.

Resenha crítica do vídeo “ Lacan e a psicanálise do século XXI” – palestra do psicanalista Jorge Forbes.

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